Em resumo
- Pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, com autores brasileiros, publicaram o estudo em 7 de outubro de 2026 na revista JAMA Psychiatry.
- Entre 187.341 adultos com 50 anos ou mais, 6,7% das pessoas com TDAH desenvolveram perda cognitiva ou demência, contra 3,4% de quem não tinha o transtorno.
- Após ajustes para outras doenças, o risco continuou cerca de 3 vezes maior. Na comparação mais rigorosa, ficou 2,3 vezes maior.
- Quem tinha mais genes ligados ao TDAH teve risco 35% maior, mesmo sem diagnóstico. O estudo é observacional e não prova causa.
O TDAH costuma ser visto como um problema da infância. Mas um estudo com 187.341 adultos nos Estados Unidos sugere que ele pode deixar marcas até a velhice. Em cerca de 10 anos de acompanhamento, 6,7% das pessoas com TDAH desenvolveram comprometimento cognitivo ou demência, quase o dobro dos 3,4% observados em quem não tinha o transtorno.
Mesmo depois de levar em conta outras doenças, o risco continuou cerca de 3 vezes maior. E até quem nunca recebeu o diagnóstico, mas carregava mais genes ligados ao TDAH, teve risco um pouco mais alto.
O trabalho foi publicado em 7 de outubro de 2026 na revista científica JAMA Psychiatry. A pesquisa foi liderada por cientistas da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e tem forte participação brasileira. Entre os autores estão Guilherme Bauer-Negrini, Douglas Teixeira Leffa, Tharick Pascoal e o psiquiatra Luis Augusto Rohde, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Como foi feito o estudo?
Os pesquisadores usaram dados do programa All of Us, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Esse programa reúne prontuários eletrônicos e exames de DNA de centenas de milhares de voluntários.
Entraram na análise 187.341 pessoas com 50 anos ou mais, que tinham prontuário e dados genéticos disponíveis. A idade média era de 56 anos, e 57% eram mulheres. Desse total, 3.026 pessoas (1,6%) tinham diagnóstico de TDAH registrado no prontuário.
A equipe acompanhou essas pessoas por uma média de 10,3 anos. O objetivo era ver quem desenvolvia comprometimento cognitivo leve ou demência. O comprometimento cognitivo leve é uma perda de memória ou de raciocínio maior do que a esperada para a idade, mas que ainda não atrapalha muito a vida diária.
O estudo olhou o TDAH de duas formas:
- Diagnóstico clínico: se a pessoa tinha TDAH registrado no prontuário.
- Risco genético: uma pontuação que soma pequenas variações no DNA ligadas ao TDAH. Ela foi calculada para todos, inclusive para quem nunca recebeu o diagnóstico.
Os cientistas também ajustaram os resultados para idade, sexo, gene APOE4 (o principal fator genético do Alzheimer), doenças do coração, diabetes, depressão, ansiedade, escolaridade e uso do sistema de saúde.
O que o estudo encontrou
O TDAH esteve ligado a mais risco em todas as análises. O número diminuiu conforme os pesquisadores incluíram outros fatores, mas não desapareceu. Veja os principais resultados:
| Análise | Risco de comprometimento cognitivo ou demência em quem tem TDAH |
|---|---|
| Casos ao longo do acompanhamento | 6,7% com TDAH contra 3,4% sem TDAH |
| Ajuste básico (sexo, etnia, gene APOE4) | 4,6 vezes maior |
| Ajuste também para doenças do corpo e psiquiátricas | 3,2 vezes maior |
| Comparação com pessoas parecidas sem TDAH (pareamento) | 2,3 vezes maior |
| Só demência | 3,1 vezes maior |
| Risco genético: 20% com pontuação mais alta contra 20% com a mais baixa | 35% maior |
O resultado genético chama atenção porque vale também para quem nunca foi diagnosticado. Isso reforça a ideia de que a ligação não depende só de como o TDAH foi registrado nos prontuários. "Dois tipos diferentes de evidência apontam na mesma direção", afirmou Tharick Pascoal, autor sênior do estudo, em comunicado da universidade.
Segundo a universidade, a associação também se manteve quando os pesquisadores exigiram um intervalo de pelo menos oito anos entre o diagnóstico de TDAH e os primeiros sinais de perda cognitiva. Esse cuidado ajuda a descartar que os sintomas de demência tenham sido confundidos com TDAH.
O estudo ainda olhou para quem já tinha desenvolvido comprometimento cognitivo. Entre essas pessoas, quem também tinha TDAH relatou com mais frequência saúde mental ruim, pior qualidade de vida e menos satisfação com a vida social. Elas também usaram cerca de 20% mais o sistema de saúde.
O que acontece no cérebro
O estudo não mediu o cérebro diretamente. Ele mostra uma ligação estatística, e os autores deixam claro que isso não prova que o TDAH causa demência. "Isso não prova que o TDAH causa demência", disse Pascoal.
Ainda assim, há algumas explicações possíveis, que precisam ser testadas:
- Circuitos de atenção e controle: o TDAH envolve diferenças no funcionamento do córtex pré-frontal e dos circuitos que usam dopamina. Essas são as mesmas redes que organizam o planejamento e a memória de trabalho, funções que costumam falhar no início do declínio cognitivo.
- Proteínas do Alzheimer: em 2022, o mesmo grupo de pesquisa ligou o risco genético para TDAH ao acúmulo de proteínas amiloide e tau em idosos que ainda não tinham sintomas. Essas proteínas são marcas do Alzheimer.
- Hábitos e saúde ao longo da vida: pessoas com TDAH têm, em média, mais chance de dormir mal, fumar e ter problemas cardiovasculares. Segundo a Organização Mundial da Saúde, sono ruim, cigarro, pressão alta e diabetes estão entre os fatores de risco para demência.
Os autores acreditam que parte desse caminho pode ser modificável. Ainda não se sabe, por exemplo, se o tratamento com estimulantes ao longo da vida muda o risco. Essa é uma das perguntas que o grupo quer responder.
Os limites do estudo
- Estudo observacional: ele mostra uma associação, não uma relação de causa e efeito.
- Dados de prontuário: o TDAH e a perda cognitiva foram identificados pelos registros médicos. Muitos adultos com TDAH nunca foram diagnosticados, e quem vai mais ao médico tem mais chance de receber qualquer diagnóstico.
- O número cai com os ajustes: o risco passou de 4,6 para 2,3 vezes maior na comparação mais rigorosa. Isso mostra que outros fatores explicam parte da diferença, e pode haver fatores que o estudo não mediu.
- Grupo pequeno com TDAH: só 1,6% dos participantes tinham o diagnóstico, e 203 deles desenvolveram perda cognitiva.
- Sem dados de tratamento e hábitos: o estudo não avaliou o efeito dos remédios para TDAH, do sono ou da atividade física.
- População dos Estados Unidos: os resultados podem não se repetir da mesma forma em outros países, como o Brasil.
O que fazer com essa informação
Ter TDAH não significa que a pessoa vai ter demência. Mais de 93% dos participantes com o transtorno não desenvolveram perda cognitiva no período do estudo. A mensagem dos autores é outra: o TDAH em adultos merece atenção e acompanhamento ao longo da vida.
Na prática, isso significa cuidar dos fatores de risco que já são conhecidos. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 57 milhões de pessoas viviam com demência no mundo em 2021, e boa parte dos fatores de risco pode ser trabalhada: pressão, diabetes, sedentarismo, cigarro, álcool, isolamento social e sono ruim.
Um bom exemplo vem da América Latina. Já mostramos aqui que um programa de mudança no estilo de vida melhorou a cognição de idosos latino-americanos. E o TDAH não é só desafio: também explicamos como o TDAH pode estar ligado à criatividade.
Se você suspeita que tem TDAH, ou já tem o diagnóstico e percebe mudanças na memória, converse com um médico. O diagnóstico em adultos é feito por psiquiatras ou neurologistas, e existem tratamentos com boa evidência.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Procure um profissional de saúde para orientação sobre TDAH, memória ou demência. Se você estiver passando por sofrimento intenso, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Neurociência na prática
- Se você suspeita de TDAH na vida adulta, procure avaliação com psiquiatra ou neurologista.
- Cuide da pressão, do açúcar no sangue e do colesterol: são fatores de risco conhecidos para demência.
- Durma bem, evite o cigarro e mantenha o corpo em movimento. Esses hábitos protegem o cérebro com o passar dos anos.
- Mantenha a vida social ativa e o cérebro desafiado, com leitura, cursos e conversas.
Perguntas frequentes
TDAH aumenta o risco de demência?
Um estudo de 2026 com 187.341 adultos ligou o TDAH a um risco cerca de 3 vezes maior de perda cognitiva e demência, mesmo após ajustes para outras doenças. Mas é uma associação, não uma prova de causa. A maioria das pessoas com TDAH não desenvolveu demência.
TDAH em adulto pode ser confundido com demência?
Sim, os dois podem causar esquecimentos e dificuldade de atenção. A diferença é que o TDAH aparece desde a infância, enquanto a demência traz uma piora progressiva na vida adulta. No estudo, a ligação se manteve mesmo exigindo oito anos entre o diagnóstico de TDAH e os primeiros sinais de perda cognitiva.
Como saber se tenho TDAH na vida adulta?
Os sinais mais comuns são dificuldade de manter o foco, esquecimentos frequentes, desorganização, impulsividade e inquietação, presentes desde a infância. O diagnóstico é clínico e deve ser feito por psiquiatra ou neurologista. Questionários online não substituem essa avaliação.
Remédio para TDAH protege contra demência?
Ainda não se sabe. O estudo não avaliou o efeito dos medicamentos, e os autores citam essa como uma das próximas perguntas a responder. Por enquanto, o que se sabe é que cuidar de pressão, diabetes, sono e atividade física ajuda a proteger o cérebro.
Fontes e referências
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