Descobertas

AVC em jovens quase dobra em 30 anos, enquanto cai entre os mais velhos, mostra estudo

Um estudo americano com 2.076 casos mostrou que a taxa de AVC em adultos de 20 a 54 anos subiu 83% entre 1993 e 2020. Pressão alta, diabetes, arritmia e uso de drogas ficaram mais comuns entre esses jovens.

Em resumo

  • Pesquisadores da Universidade de Cincinnati publicaram o estudo em 23 de setembro de 2026 na revista Neurology, com 2.076 primeiros AVCs em adultos de 20 a 54 anos.
  • A taxa de AVC nessa faixa de idade subiu de 33,9 para 62,2 casos por 100 mil pessoas por ano entre 1993 e 2020. Entre os mais velhos, caiu de 618,8 para 453,0.
  • O AVC isquêmico, causado pelo entupimento de um vaso, quase dobrou e explica a maior parte do aumento.
  • Pressão alta, diabetes, fibrilação atrial e uso de drogas ficaram mais comuns. O uso de drogas registrado passou de 4,6% para 40,2% dos jovens com AVC.

O AVC costuma ser visto como um problema de quem já passou dos 60 anos. Mas um estudo americano que acompanhou uma mesma região por quase 30 anos mostra uma mudança preocupante. Entre adultos de 20 a 54 anos, a taxa de AVC subiu de 33,9 para 62,2 casos por 100 mil pessoas por ano, um aumento de cerca de 83%. No mesmo período, a taxa entre os mais velhos caiu.

O tipo que mais cresceu foi o AVC isquêmico, quando um vaso do cérebro entope. A taxa desse tipo quase dobrou. Ao mesmo tempo, ficaram mais comuns entre os jovens com AVC a pressão alta, o diabetes, a fibrilação atrial e o uso de drogas.

O trabalho foi publicado em 23 de setembro de 2026 na revista científica Neurology, da Academia Americana de Neurologia. A pesquisa foi liderada pela neurologista Emily Fisher, da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos.

Como foi feito o estudo?

Os pesquisadores usaram dados do Estudo de AVC da Grande Cincinnati e do Norte do Kentucky. Desde 1993, esse projeto registra os casos de AVC atendidos nos hospitais de uma região de cinco condados. Segundo os autores, a população dessa região é parecida com a média dos Estados Unidos em raça, escolaridade e renda.

A equipe analisou seis períodos: de julho de 1993 a junho de 1994 e os anos de 1999, 2005, 2010, 2015 e 2020. Em cada período, médicos especializados em AVC revisaram os prontuários para confirmar os casos.

O foco foi o primeiro AVC da vida em pessoas de 20 a 54 anos. Ao todo, foram 2.076 casos. Os cientistas calcularam as taxas usando dados do censo americano. Assim, foi possível comparar os períodos mesmo com mudanças no tamanho e na idade da população.

Eles também mediram quantas pessoas morreram até 30 dias depois do AVC, com ajuste para idade, raça e sexo, e acompanharam os fatores de risco registrados em cada época.

O que o estudo encontrou

Os números mostram caminhos opostos para jovens e idosos:

Medida1993 e 19942020
AVC em adultos de 20 a 54 anos (casos por 100 mil por ano)33,962,2
AVC isquêmico em adultos de 20 a 54 anos (casos por 100 mil por ano)23,847,3
AVC em adultos mais velhos (casos por 100 mil por ano)618,8453,0
Uso de drogas registrado entre jovens com AVC4,6%40,2%
Mortes em até 30 dias entre jovens com AVC11,7%9,4%

Os AVCs hemorrágicos, causados pelo rompimento de um vaso, não tiveram aumento parecido. O crescimento veio quase todo do AVC isquêmico.

O aumento no uso de drogas chama atenção. Ele passou de 4,6% para 40,2% dos jovens com AVC, e boa parte dessa alta esteve ligada à maconha, segundo a universidade. A pressão alta, o diabetes e a fibrilação atrial, um tipo de arritmia do coração, também ficaram mais comuns ao longo dos anos.

Há uma notícia boa: a chance de morrer logo após o AVC caiu. Essa melhora foi maior nos AVCs hemorrágicos. Entre os jovens com hemorragia dentro do cérebro, a mortalidade em 30 dias passou de 27,5% para 21,2%.

"Nossos resultados mostram a importância de identificar e tratar os fatores de risco para AVC logo no início da vida adulta", afirmou Emily Fisher em comunicado da universidade.

O que acontece no cérebro

O cérebro representa uma pequena parte do peso do corpo, mas depende de um fluxo constante de sangue para receber oxigênio e glicose. No AVC isquêmico, um coágulo ou uma placa de gordura bloqueia uma artéria. A região que ficou sem sangue começa a sofrer em poucos minutos.

Por isso os neurologistas repetem a frase "tempo é cérebro". Um estudo clássico, publicado em 2006 na revista Stroke, estimou que um AVC isquêmico típico destrói cerca de 1,9 milhão de neurônios a cada minuto sem tratamento. Quanto mais rápido o atendimento, mais tecido pode ser salvo.

Os fatores de risco que cresceram no estudo agem nos vasos de formas diferentes:

  • Pressão alta: força as paredes das artérias e acelera o seu endurecimento.
  • Diabetes: o excesso de açúcar no sangue danifica os vasos pequenos e grandes.
  • Fibrilação atrial: o ritmo irregular do coração favorece a formação de coágulos, que podem viajar até o cérebro.
  • Drogas: cocaína e anfetaminas podem estreitar as artérias de forma brusca. Pesquisas anteriores também investigam se a maconha pode provocar espasmos nos vasos do cérebro, mas essa relação ainda está sendo estudada.

Os limites do estudo

  • Uma só região: os dados vêm de uma área dos Estados Unidos. O resultado pode ser diferente em outras regiões e em outros países, como o Brasil.
  • Sem grupo de comparação: os pesquisadores não tinham dados equivalentes de pessoas que não tiveram AVC. Por isso, não dá para afirmar que o aumento dos fatores de risco explica o aumento dos casos.
  • Mudanças no diagnóstico: ao longo de 30 anos, exames como a ressonância magnética ficaram mais usados. Isso pode ajudar a encontrar AVCs menores, que antes passariam sem registro. A pesquisa de drogas nos hospitais também pode ter ficado mais frequente.
  • Só casos internados: o estudo contou AVCs atendidos em hospitais. Casos leves que não chegaram a ser internados podem ter ficado de fora.
  • Sem dados de sequelas: o trabalho não mediu como ficaram o movimento, a fala e a memória de quem sobreviveu.

Como se proteger e reconhecer um AVC

A boa notícia é que boa parte dos fatores de risco pode ser controlada. Segundo o Ministério da Saúde, os principais incluem pressão alta, diabetes tipo 2, colesterol alto, excesso de peso, cigarro, álcool em excesso, uso de drogas e sedentarismo.

Medir a pressão é simples e pode ser feito em qualquer unidade básica de saúde. Muitos jovens têm pressão alta sem saber, porque ela quase nunca dá sintomas. O mesmo vale para o diabetes.

A atividade física também ajuda a controlar o açúcar no sangue. Já mostramos aqui como o exercício e a glicose na meia-idade influenciam a saúde do cérebro. E, para quem usa maconha achando que ela é inofensiva, vale ler também o que um estudo de 35 anos revelou sobre maconha e sono.

Saber reconhecer um AVC salva vidas, em qualquer idade. Os sinais de alerta aparecem de repente:

  • fraqueza ou formigamento em um lado do corpo, no rosto, no braço ou na perna;
  • boca torta ao sorrir;
  • dificuldade para falar ou para entender o que os outros dizem;
  • perda de visão em um ou nos dois olhos;
  • tontura, perda de equilíbrio ou dificuldade para andar;
  • dor de cabeça muito forte e sem causa aparente.

Diante de qualquer um desses sinais, ligue imediatamente para o SAMU, no 192, ou leve a pessoa a um hospital. Não espere os sintomas passarem.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Procure um profissional de saúde para avaliar seus fatores de risco. Em caso de suspeita de AVC, ligue 192.

Neurociência na prática

  • Meça a pressão pelo menos uma vez por ano, mesmo sem sintomas. Pressão alta é o principal fator de risco para AVC.
  • Faça exames de glicose e colesterol com regularidade, principalmente se há casos na família.
  • Evite cigarro, excesso de álcool e drogas, que aumentam o risco de AVC em qualquer idade.
  • Aprenda os sinais de alerta: fraqueza de um lado do corpo, boca torta e fala enrolada. Diante deles, ligue 192 na hora.

Perguntas frequentes

AVC em jovem é comum?

O AVC ainda é mais comum em pessoas mais velhas, mas está crescendo entre adultos jovens. Um estudo americano mostrou que a taxa em pessoas de 20 a 54 anos subiu 83% entre 1993 e 2020. No mesmo período, a taxa entre os mais velhos caiu.

O que causa AVC em pessoas jovens?

No estudo, os fatores que mais cresceram entre jovens com AVC foram pressão alta, diabetes, fibrilação atrial e uso de drogas. O Ministério da Saúde também cita colesterol alto, obesidade, cigarro, álcool em excesso e sedentarismo. Algumas causas mais raras, como problemas de coagulação e lesões nas artérias do pescoço, também aparecem em jovens.

Quais são os primeiros sinais de um AVC?

Os sinais surgem de repente: fraqueza ou formigamento em um lado do corpo, boca torta, fala enrolada, perda de visão, tontura e dor de cabeça muito forte. Diante de qualquer um deles, ligue imediatamente para o SAMU, no 192. Quanto mais rápido o atendimento, maiores as chances de recuperação.

Maconha pode causar AVC?

No estudo, o uso de drogas entre jovens com AVC passou de 4,6% para 40,2%, e grande parte da alta esteve ligada à maconha. Mas o trabalho não prova que a maconha causou os AVCs. Essa relação ainda está sendo investigada por outros estudos.

Fontes e referências

  1. Fisher, Ding, Stanton et al.: Stroke in the Young: Incidence, 30-Day Case Fatality Rates, and Risk Factors Over Time in a Population-Based Study (Neurology, 2026)
  2. Universidade de Cincinnati: More young adults are having strokes than three decades ago
  3. ScienceDaily: Strokes have nearly doubled among younger adults, and scientists aren't sure why
  4. Ministério da Saúde: AVC (Acidente Vascular Cerebral)

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