Sono

Maconha ajuda a dormir? Estudo de 35 anos mostra noites mais picadas em quem usa

Um estudo que acompanhou 1.266 adultos por 35 anos ligou o uso de maconha a um sono mais fragmentado, com mais tempo acordado no meio da noite. O curioso é que os próprios usuários não perceberam a diferença.

Em resumo

  • Pesquisadores da Universidade Northwestern publicaram o estudo em 9 de outubro de 2026 na revista JAMA Network Open, com 1.266 adultos acompanhados por 35 anos.
  • Quem usou maconha no último mês teve chance 3,2 vezes maior de passar 30 minutos ou mais acordado no meio da noite, em comparação com quem nunca usou.
  • Cada ano a mais de uso acumulado aumentou em 21% a chance desse sono picado e em 10% a chance de baixa eficiência do sono.
  • Os usuários não relataram sono pior nos questionários. A diferença só apareceu no aparelho de pulso que mediu o sono por 7 dias.

Muita gente usa maconha para pegar no sono. Mas um estudo que acompanhou adultos americanos por 35 anos encontrou o contrário do que a fama sugere. Em quem usava a droga havia pouco tempo, a chance de passar 30 minutos ou mais acordado no meio da noite foi 3,2 vezes maior do que em quem nunca usou. E cada ano a mais de uso ao longo da vida aumentou em 21% a chance desse sono picado.

O detalhe mais curioso: os próprios usuários não perceberam a diferença. Nos questionários, eles avaliaram o próprio sono como igual ao de quem nunca fumou. Só o aparelho no pulso mostrou o problema.

O trabalho foi publicado em 9 de outubro de 2026 na revista científica JAMA Network Open, de acesso aberto. A pesquisa foi liderada por Thanh-Huyen Vu e Mercedes Carnethon, da Faculdade de Medicina Feinberg, da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos.

Como foi feito o estudo?

Os pesquisadores usaram dados do CARDIA, um grande estudo americano que começou em 1985 e 1986 com jovens adultos e segue as mesmas pessoas até hoje. Ao longo de 35 anos, os participantes contaram em várias consultas se usavam maconha e com que frequência.

Com essas respostas, a equipe calculou o uso acumulado em "anos de maconha". Um ano de maconha equivale a 365 dias de uso. Assim, alguém que usou a droga em metade dos dias por dois anos soma cerca de um ano de maconha.

Entre 2020 e 2022, os voluntários já estavam na meia-idade. A média de idade era de 60,7 anos. Nessa fase, eles passaram por dois tipos de avaliação do sono:

  • Medida objetiva: 891 pessoas usaram no pulso, por 7 dias seguidos, um actígrafo. É um aparelho parecido com um relógio inteligente, que registra os movimentos e estima quando a pessoa está dormindo ou acordada.
  • Medida subjetiva: 1.128 pessoas responderam ao Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh, um questionário muito usado para saber como a pessoa avalia o próprio sono.

No total, 1.266 adultos entraram na análise. No grupo do actígrafo, 63,3% eram mulheres, 41% eram pessoas negras e 59% brancas. Do total desse grupo, 108 pessoas (12,1%) tinham usado maconha no último mês, 642 (72,1%) já tinham usado no passado e 141 (15,8%) nunca usaram.

Os cientistas ajustaram os resultados para fatores que também mexem com o sono: idade, sexo, raça, sintomas de depressão, atividade física, álcool, cigarro e uso de remédios.

O que o estudo encontrou

Os sinais de sono pior apareceram no actígrafo. Quem acumulou mais anos de uso tinha mais chance de ter uma noite fragmentada, com despertares e tempo acordado na cama. Veja os principais números:

Medida do sonoCada ano a mais de uso acumuladoUso no último mês, comparado a quem nunca usou
30 minutos ou mais acordado depois de pegar no sonoChance 21% maiorChance 3,2 vezes maior
Eficiência do sono baixa (menos de 85% do tempo na cama dormindo)Chance 10% maiorChance maior
Sono muito fragmentadoChance 4% maiorChance maior
Dormir mais de 8 horasSem relaçãoChance 4,6 vezes maior
Qualidade do sono relatada no questionárioSem relaçãoSem relação

Dois pontos chamam atenção. O primeiro é que os usuários recentes passavam mais tempo na cama, com mais chance de dormir mais de 8 horas. Mas esse tempo extra veio junto com mais despertares. Ou seja, mais horas deitado não significou um descanso melhor.

O segundo é a distância entre o que a pessoa sente e o que o aparelho mede. A maconha não teve relação com a nota que os participantes deram ao próprio sono. "Nossos dados não sustentam a crença de que a maconha ajuda a dormir", afirmou Mercedes Carnethon, autora sênior do estudo, em comunicado da universidade.

Os pesquisadores também repetiram a análise só com quem já tinha parado de usar. O uso acumulado continuou ligado a menor eficiência do sono e a mais tempo acordado à noite. Isso sugere que a relação não depende apenas do efeito da última dose.

O que acontece no cérebro

O estudo não mediu a atividade cerebral. Mas a ciência já sabe bastante sobre como a maconha age no sono.

O principal componente da planta, o THC, se liga a receptores chamados CB1. Eles fazem parte do sistema endocanabinoide, uma rede de sinais que o próprio corpo usa para regular o humor, o apetite, a dor e também o ciclo de sono e vigília.

No curto prazo, o THC pode dar sonolência e ajudar a pessoa a adormecer mais rápido. Por isso tanta gente tem a impressão de que a droga funciona como calmante. Pesquisas anteriores também indicam que ele reduz o sono REM, a fase ligada aos sonhos e ao processamento das emoções.

Com o uso repetido, o cérebro se adapta. Os receptores ficam menos sensíveis, e a pessoa precisa de mais para ter o mesmo efeito. Quando a dose cai ou é interrompida, é comum surgirem insônia, sonhos muito vívidos e despertares. Essa adaptação pode ajudar a explicar por que o uso de longo prazo apareceu ligado a noites mais picadas.

Também há uma explicação para o "sono bom" relatado pelos usuários. Despertares curtos muitas vezes não ficam na memória. A pessoa acorda, se mexe e volta a dormir sem lembrar disso de manhã. O actígrafo, por outro lado, registra cada movimento.

Os limites do estudo

É importante ler esses resultados com cuidado. O estudo é observacional. Ele mostra uma associação entre maconha e sono pior, mas não prova que a droga causou o problema. Outras diferenças entre usuários e não usuários podem ter influenciado, mesmo com os ajustes feitos.

  • Uso informado pelo próprio participante: as pessoas contaram quanto usavam, e parte dos dados anuais foi estimada a partir das consultas vizinhas.
  • Grupo pequeno de usuários recentes: no grupo do actígrafo, só 108 pessoas tinham usado no último mês. Por isso, alguns números têm margem de erro grande. A chance 4,6 vezes maior de dormir mais de 8 horas, por exemplo, pode ser bem menor ou maior na realidade.
  • Sem detalhes do produto: o estudo não separou tipos de maconha, dose, quantidade de THC ou CBD, nem a forma de uso, como fumar, vaporizar ou comer. Os autores dizem que essas perguntas ficam para pesquisas futuras.
  • Uso recreativo, não medicinal: os resultados valem para o uso por conta própria. Eles não avaliam remédios à base de canabidiol prescritos por médico.
  • Uma semana de registro: o actígrafo ficou 7 dias no pulso. Ele estima o sono pelos movimentos, mas não mede as fases do sono como o exame de polissonografia.

Como cuidar do sono na prática

Se você usa maconha para dormir, vale observar se acorda cansado mesmo depois de muitas horas na cama. Esse pode ser um sinal de sono fragmentado, como o estudo mostrou.

A insônia que dura mais de três meses merece avaliação. O tratamento com mais evidência para ela é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, uma abordagem que ajusta horários, pensamentos e hábitos ligados ao sono. Já explicamos aqui como tratar a insônia também pode aliviar a depressão.

Outras substâncias do dia a dia também mexem com a noite sem que a gente perceba. Mostramos, por exemplo, como a cafeína pode roubar o sono profundo mesmo em quem diz dormir bem. Para quem quer entender outros efeitos da droga no cérebro, vale ler também por que a maconha às vezes provoca ansiedade.

Quem decide parar de usar deve saber que as primeiras semanas podem trazer noites piores e sonhos intensos. Isso costuma passar. Com apoio de um profissional de saúde, essa fase fica mais fácil de atravessar.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você tem dificuldade para dormir ou para controlar o uso de maconha, procure um profissional de saúde. No SUS, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem apoio gratuito. Se estiver passando por sofrimento intenso, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Neurociência na prática

  • Se você usa maconha para dormir, observe se acorda cansado mesmo depois de muitas horas na cama.
  • Não confie só na sensação: despertares curtos à noite muitas vezes não ficam na memória.
  • Para insônia que dura meses, procure tratamento. A terapia cognitivo-comportamental para insônia é a opção com mais evidência.
  • Ao parar de usar, as primeiras semanas podem trazer noites piores. Isso costuma passar, e apoio profissional ajuda.

Perguntas frequentes

Maconha ajuda a dormir?

No curto prazo, a maconha pode dar sono e ajudar a adormecer mais rápido. Mas um estudo de 2026 com 1.266 adultos ligou o uso a uma noite mais fragmentada, com mais tempo acordado. Os autores concluíram que os dados não sustentam a ideia de que a droga melhora o sono.

Maconha atrapalha o sono?

O estudo mostrou que quem usou maconha no último mês teve chance 3,2 vezes maior de ficar 30 minutos ou mais acordado no meio da noite. Cada ano de uso acumulado também aumentou essa chance. Como é um estudo observacional, ele mostra uma associação, não uma causa comprovada.

Por que quem fuma maconha acha que dorme bem?

Despertares curtos à noite costumam não ficar na memória, então a pessoa não percebe que o sono foi interrompido. No estudo, os usuários avaliaram o próprio sono como igual ao de quem nunca usou. Só o aparelho de pulso registrou as interrupções.

Parar de usar maconha dá insônia?

Sim, é comum que as primeiras semanas sem a droga tragam dificuldade para dormir, sonhos vívidos e despertares. Isso acontece porque o cérebro se adaptou ao THC e precisa de um tempo para se reajustar. Com apoio de um profissional de saúde, essa fase costuma ser mais fácil.

Fontes e referências

  1. Vu, Knutson, Auer et al.: Recent and Cumulative Cannabis Use and Sleep in Middle-Aged Adults (JAMA Network Open, 2026)
  2. Neuroscience News: The Truth About Cannabis and Sleep
  3. Organização Mundial da Saúde: Cannabis

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