Longevidade

Mais de 8 horas de atividade física por semana ligadas a Parkinson mais lento, diz estudo de 7 anos

Um estudo americano acompanhou 294 pessoas com Parkinson por até sete anos e encontrou uma ligação entre mais horas de atividade física e uma piora mais lenta da memória e dos movimentos. O tempo de atividade pesou mais do que a intensidade, e caminhar e cuidar da casa também contaram.

Em resumo

  • Estudo acompanhou 294 pessoas com Parkinson leve a moderado, com idade média de 66 anos, por até sete anos.
  • Quem fazia mais de 8 horas de atividade física por semana teve queda anual de 0,007 ponto no teste de cognição, contra 0,478 ponto entre os menos ativos.
  • Os mais ativos também tiveram evolução mais lenta dos sintomas motores, e o tempo total de atividade pesou mais do que a intensidade.
  • É um estudo observacional, com atividade relatada pelos participantes, e não prova que o exercício desacelera a doença.

Mais de 8 horas de atividade física por semana. Foi esse o grupo que mostrou o declínio mais lento da memória e do raciocínio em pessoas com Parkinson, num estudo que acompanhou 294 pacientes por até sete anos. No teste de cognição, a perda anual estimada foi de apenas 0,007 ponto entre os mais ativos, contra 0,478 ponto entre os menos ativos.

Os mais ativos também tiveram uma evolução mais lenta dos sintomas de movimento, como lentidão, rigidez e tremor. Por isso, os autores falam em um possível benefício duplo: para o corpo e para a mente.

O trabalho foi publicado on-line em 7 de outubro de 2026 na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, por pesquisadores da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos. A conclusão é cuidadosa: o estudo mostra uma associação, e não prova que o exercício freia a doença. Mesmo assim, ele reforça algo que neurologistas já recomendam no dia a dia.

O Parkinson é uma doença neurológica que avança com o tempo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 8,5 milhões de pessoas viviam com a doença no mundo em 2019, e a prevalência praticamente dobrou em 25 anos. Os remédios aliviam os sintomas, mas ainda não existe tratamento capaz de interromper a progressão. Por isso, hábitos que possam ajudar a manter a autonomia por mais tempo interessam a pacientes, famílias e médicos.

Como foi feito o estudo?

Trata-se de um estudo observacional, do tipo coorte. Os pesquisadores não sortearam quem faria exercício. Eles apenas acompanharam pessoas com Parkinson e compararam a evolução de quem se movimentava mais com a de quem se movimentava menos.

Os participantes faziam parte de um programa de pesquisa da Universidade de Cincinnati e foram incluídos entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2025. Eram 294 pessoas com Parkinson leve a moderado, com idade média de 66 anos. Cerca de um terço eram mulheres.

A atividade física foi medida por entrevistas padronizadas. Cada pessoa estimava quantas horas por semana passava em atividades no trabalho, em casa e no lazer. Entravam na conta tanto atividades moderadas, como caminhada rápida, natação leve, tênis em dupla, passar aspirador ou cortar grama, quanto atividades vigorosas, como corrida, pedalar rápido, esportes coletivos e carregar peso.

Com base nisso, os participantes foram divididos em três grupos:

  • Menos ativos: até 4 horas por semana;
  • Intermediários: de 4 a 8 horas por semana;
  • Mais ativos: mais de 8 horas por semana.

Uma vez por ano, todos faziam dois exames. O primeiro avaliava a cognição com um teste de 0 a 30 pontos, em que nota maior é melhor. O segundo media os sintomas motores com uma escala de 0 a 132 pontos, em que nota maior significa sintomas piores. No início, a média nessa escala era de 23 pontos. A memória e o raciocínio foram acompanhados por até cinco anos, e os sintomas motores, por até sete. As análises foram ajustadas para idade, sexo e tempo de doença, entre outros fatores.

O que os pesquisadores encontraram

Quanto mais tempo de atividade física, mais lenta foi a piora, tanto na cognição quanto nos movimentos. Veja as mudanças anuais estimadas em cada grupo:

GrupoCognição (teste de 0 a 30)Sintomas motores (escala de 0 a 132)
Até 4 horas por semanaqueda de 0,478 ponto por anopiora de 0,143 ponto por ano
De 4 a 8 horas por semanaqueda de 0,090 ponto por anoredução de 0,225 ponto por ano
Mais de 8 horas por semanaqueda de 0,007 ponto por anoredução de 0,783 ponto por ano

Os números parecem pequenos, mas fazem diferença com o tempo. Se o ritmo do grupo menos ativo se mantivesse por cinco anos, a perda chegaria a cerca de 2,4 pontos no teste de cognição. No grupo mais ativo, a nota praticamente não mudaria. Nos sintomas motores, a escala até recuou um pouco nos grupos mais ativos, enquanto subiu no grupo menos ativo.

Na comparação direta entre o grupo mais ativo e o menos ativo, a diferença na cognição foi bem clara do ponto de vista estatístico. Já a diferença nos sintomas motores ficou no limite da significância, o que pede mais cautela na leitura desse resultado.

Dois detalhes chamaram a atenção dos autores:

  • O que conta é o presente: a atividade física recente continuou ligada a uma evolução melhor mesmo depois de considerar quanto a pessoa se exercitava nos dez anos anteriores. Isso sugere que começar a se mexer mais agora pode valer a pena.
  • Tempo pesa mais que intensidade: quando os pesquisadores levaram em conta o total de horas ativas, a atividade vigorosa deixou de mostrar vantagem extra. Movimentar-se por mais tempo parece mais importante do que fazer exercícios pesados.

Segundo o autor principal, o médico Dong-Woo Ryu, as diferenças entre os grupos podem ficar mais relevantes ao longo dos anos, e o benefício pode depender de a pessoa continuar ativa.

O que acontece no cérebro

No Parkinson, ocorre a perda progressiva de neurônios que produzem dopamina, um mensageiro químico essencial para controlar os movimentos. Com o tempo, a doença também atinge outras áreas do cérebro, o que ajuda a explicar problemas de memória, atenção e planejamento.

Este estudo não mediu o que acontece dentro do cérebro dos participantes. Mas pesquisas anteriores, em animais e em pessoas, ajudam a entender por que o movimento pode fazer diferença:

  • O exercício aumenta o fluxo de sangue no cérebro, levando mais oxigênio e nutrientes aos neurônios.
  • Ele estimula a produção de fatores de crescimento, como o BDNF, que ajudam os neurônios a sobreviver e a formar novas conexões.
  • Estudos de imagem sugerem que pessoas com Parkinson que se exercitam com regularidade usam a dopamina disponível de forma mais eficiente.
  • A atividade física também reduz a inflamação no corpo e melhora o sono e o humor, fatores que influenciam a saúde do cérebro.

Uma ideia importante é a da neuroplasticidade: a capacidade do cérebro de se adaptar e reorganizar seus circuitos. Treinar movimento, equilíbrio e coordenação pode ajudar o cérebro a compensar parte das perdas causadas pela doença.

Os limites do estudo

Os próprios autores apontam limitações que precisam ser levadas em conta:

  • É um estudo observacional. Ele mostra associação, não causa e efeito. Pode ser que pessoas com uma forma mais branda da doença consigam se exercitar mais, e não o contrário.
  • A atividade física foi relatada pelos próprios participantes. Muita gente superestima ou subestima o quanto se movimenta.
  • Possível viés de seleção. Os participantes, em geral, tinham boa memória e bom raciocínio no início, o que limita a aplicação dos resultados a pessoas em fases mais avançadas.
  • As diferenças anuais são pequenas e o resultado nos sintomas motores ficou no limite da significância estatística.

Para confirmar que o exercício realmente desacelera o Parkinson, são necessários ensaios clínicos, em que os participantes são sorteados para diferentes rotinas de atividade. Alguns desses estudos já estão em andamento.

Como trazer mais movimento para o dia a dia com Parkinson

A boa notícia do estudo é que as horas contadas incluíam atividades comuns, como caminhar, cuidar da casa e do jardim. Não é preciso virar atleta. Algumas ideias práticas:

  • Some pequenos blocos: três caminhadas de 20 minutos por dia já passam de 7 horas por semana.
  • Combine tipos de exercício: atividades aeróbicas, como caminhada e bicicleta ergométrica, exercícios de força e treinos de equilíbrio. Dança e tai chi também são boas opções.
  • Valorize as tarefas da casa: varrer, passar aspirador e cuidar de plantas também contam como movimento.
  • Busque orientação: um fisioterapeuta ou educador físico pode montar um plano seguro, principalmente se houver risco de quedas.

Para a população adulta em geral, a Organização Mundial da Saúde recomenda de 150 a 300 minutos de atividade física moderada por semana. A constância parece ser o ponto central: o benefício observado esteve ligado a manter a atividade, e não a um esforço passageiro.

Se você quer saber mais sobre o assunto, já mostramos aqui como exercício e controle da glicose na meia-idade estão ligados à proteção da memória e como mudanças no estilo de vida melhoraram a cognição em um estudo na América Latina.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um médico. Pessoas com Parkinson devem conversar com o neurologista antes de mudar a rotina de exercícios e nunca devem alterar a medicação por conta própria.

Neurociência na prática

  • Divida a atividade em blocos curtos: três caminhadas de 20 minutos por dia somam mais de 7 horas por semana.
  • Misture caminhada ou bicicleta com exercícios de força e de equilíbrio, como dança e tai chi.
  • Conte as tarefas da casa: varrer, passar aspirador e cuidar do jardim também são movimento.
  • Peça ao neurologista ou a um fisioterapeuta um plano seguro, principalmente se houver risco de quedas.

Perguntas frequentes

Exercício ajuda quem tem Parkinson?

Um estudo com 294 pessoas com Parkinson encontrou que quem fazia mais de 8 horas de atividade física por semana teve declínio mais lento da memória e dos sintomas motores. O estudo é observacional e não prova causa e efeito. Mesmo assim, a atividade física já faz parte das recomendações para quem vive com a doença.

Qual o melhor exercício para Parkinson?

Não existe um único exercício ideal. Neste estudo, o tempo total de atividade pesou mais do que a intensidade, e atividades como caminhada rápida e tarefas domésticas também contaram. Combinar exercícios aeróbicos, de força e de equilíbrio, com orientação profissional, costuma ser o caminho mais indicado.

Quantas horas por semana de atividade física são recomendadas?

A Organização Mundial da Saúde recomenda de 150 a 300 minutos de atividade moderada por semana para adultos. No estudo sobre Parkinson, os melhores resultados apareceram em quem somava mais de 8 horas semanais, incluindo atividades do dia a dia. O ideal é ajustar a meta com o médico.

Exercício físico pode impedir a progressão do Parkinson?

Ainda não há prova de que o exercício impeça ou freie a progressão do Parkinson. Os estudos observacionais mostram associação entre mais atividade e evolução mais lenta, e ensaios clínicos estão em andamento para confirmar. O exercício complementa, mas não substitui, o tratamento indicado pelo neurologista.

Fontes e referências

  1. Ryu, Duque, Marsili e colaboradores: Physical Activity and Motor and Cognitive Progression in Parkinson Disease: A Longitudinal Cohort Study (Neurology, 2026)
  2. Academia Americana de Neurologia (via Newswise): Greater physical activity associated with slower progression in Parkinson's
  3. Universidade de Cincinnati: More physical activity may mean slower Parkinson's disease progression
  4. Organização Mundial da Saúde: Parkinson disease (fact sheet)

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