Comportamento

TDAH e criatividade: o que a neurociência diz sobre a atenção que não para quieta

Uma revisão publicada na revista iScience reúne evidências de que a forma como a atenção funciona no TDAH pode favorecer a criatividade, e propõe que atividades criativas sejam estudadas como apoio ao tratamento. Entenda o que já se sabe e o que ainda é hipótese.

Em resumo

  • Uma revisão publicada em 2026 na revista iScience, de pesquisadores da Constructor University e de instituições francesas, propõe olhar o TDAH também pelo lado das habilidades, e não só dos déficits.
  • A ideia central é que a atenção mais solta, típica do TDAH, pode favorecer o pensamento criativo, especialmente a geração de muitas ideias diferentes.
  • Os autores sugerem que atividades criativas sejam estudadas como apoio ao tratamento, porque poderiam fortalecer as redes cerebrais de controle da atenção.
  • É uma proposta de pesquisa baseada em estudos anteriores; ainda não há prova de que atividades criativas tratem o TDAH.

A forma como a atenção funciona no TDAH pode ter um lado vantajoso: favorecer a criatividade, principalmente na hora de gerar muitas ideias diferentes. É o que propõe uma revisão publicada em 2026 na revista iScience, que vai além e sugere estudar atividades criativas como apoio ao tratamento. O trabalho reúne evidências de várias áreas, mas ainda é uma proposta, não uma conclusão definitiva.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade costuma ser descrito só pelo que falta: foco, organização, paciência. A neurocientista Radwa Khalil, da Constructor University, na Alemanha, e colegas de instituições francesas defendem que essa visão é incompleta.

O que é o TDAH, do ponto de vista do cérebro?

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento. Os pesquisadores citam que ele afeta cerca de 8% das crianças no mundo, e em muitos casos os sintomas continuam na vida adulta. Ao contrário do que o nome sugere, o problema central não é falta de atenção, e sim dificuldade em regular a atenção: escolher onde colocá-la e mantê-la ali quando a tarefa não é interessante.

Isso ajuda a explicar um fenômeno que muitas famílias conhecem: a mesma criança que não consegue terminar a lição de casa passa horas concentrada em um jogo ou desenho. É o chamado hiperfoco.

No cérebro, essa regulação envolve redes que trabalham em equilíbrio. Uma delas é ativada quando focamos em uma tarefa externa. Outra, a rede de modo padrão, fica mais ativa quando a mente vagueia, imagina e faz associações livres. No TDAH, a alternância entre essas redes parece funcionar de forma diferente.

Ficha do estudo
RevistaiScience, 2026; 29(5): 115387
InstituiçõesConstructor University (Alemanha) e instituições de pesquisa francesas
Tipo de estudoRevisão e proposta de pesquisa, reunindo achados de várias áreas
AutoresSarah Bou Sader Nehme, Emiliano Macaluso e Radwa Khalil
Artigo originaldoi.org/10.1016/j.isci.2026.115387

Por que o TDAH poderia favorecer a criatividade?

A criatividade costuma ser dividida em duas etapas. A primeira é o pensamento divergente: gerar muitas possibilidades, fazer conexões inesperadas, pensar fora do caminho óbvio. A segunda é o pensamento convergente: escolher a melhor ideia, refinar e transformar em algo concreto.

A revisão parte da ideia de que uma atenção menos filtrada deixa entrar mais estímulos e mais associações, o que pode alimentar a primeira etapa. Uma mente que pula de um assunto para outro também faz conexões entre áreas distantes. Por outro lado, a segunda etapa, que exige organização e persistência, costuma ser justamente a mais difícil para quem tem TDAH.

Ou seja, não se trata de dizer que toda pessoa com TDAH é mais criativa. A proposta é que existe um perfil cognitivo diferente, com forças e dificuldades, e que vale a pena estudar os dois lados.

Atividades criativas podem ajudar no tratamento?

Esse é o ponto mais novo do trabalho. Os autores sugerem que atividades criativas, como arte, música e escrita, possam fortalecer as redes cerebrais de controle da atenção, já que exigem alternar entre imaginar e executar. Se isso se confirmar, a criatividade deixaria de ser só uma característica e passaria a ser também uma ferramenta.

Mas os próprios pesquisadores são cautelosos: a relação entre criatividade e atenção ainda não é bem compreendida, e o benefício para os sintomas é descrito como uma possibilidade. Eles pedem estudos de longo prazo e colaboração entre neurociência, psicologia e educação para testar a ideia.

O que essa revisão não diz

  • Não diz que TDAH é uma vantagem e não precisa de tratamento. O transtorno traz prejuízos reais na escola, no trabalho e nos relacionamentos.
  • Não traz dados novos de pacientes: é uma síntese de pesquisas anteriores e uma proposta de caminho.
  • Não substitui o tratamento indicado por médicos e psicólogos, que pode incluir terapia, orientação familiar e, em alguns casos, medicação.

Como aplicar no dia a dia?

Para quem tem TDAH ou convive com alguém que tem, a ideia útil é separar as etapas do trabalho criativo e dar a cada uma o suporte certo:

  1. Momento de gerar ideias: liberdade, papel em branco, conversa, movimento. É onde a mente inquieta costuma brilhar.
  2. Momento de organizar: listas, quadros visuais, prazos curtos e tarefas pequenas.
  3. Momento de concluir: parceria com alguém que ajude a revisar e cobrar, ou ferramentas que lembrem o próximo passo.

Atividades criativas regulares, como tocar um instrumento, desenhar ou escrever, também podem ser bons aliados para o bem-estar, desde que não substituam o acompanhamento profissional.

Nas empresas e nas escolas

Equipes diversas pensam melhor. Pessoas com perfil mais divergente costumam contribuir muito em fases de ideação, diagnóstico de problemas e inovação, e se desgastam em rotinas longas e repetitivas sem retorno. Líderes podem aproveitar essas forças combinando perfis complementares, quebrando entregas em etapas menores e dando retorno frequente. Na escola, alternar explicação com atividades práticas e criativas ajuda todos os alunos, não só os que têm TDAH.

A motivação para concluir tarefas também passa por um sistema de recompensa no cérebro. Leia sobre as células que mantêm você motivado quando a tarefa fica difícil e veja o nosso guia de neurociência da aprendizagem.

Neurociência na prática

  • Não trate a mente inquieta só como problema: observe em quais situações ela gera boas ideias.
  • Separe momentos de criar (gerar ideias) de momentos de executar (organizar, revisar, entregar).
  • Use estruturas externas para a parte executiva: listas, prazos curtos, lembretes e alguém para revisar.
  • Atividades criativas como música, desenho, escrita e teatro podem ser bons aliados, mas não substituem o tratamento indicado por profissionais.
  • Em equipes, aproveite pessoas com TDAH em fases de ideação e combine com colegas fortes em execução.

Perguntas frequentes

Pessoas com TDAH são mais criativas?

Alguns estudos encontraram mais pensamento divergente, que é a capacidade de gerar muitas ideias diferentes, em pessoas com TDAH ou com traços de TDAH. Mas isso varia muito de pessoa para pessoa, e criatividade não depende só de ter ideias: também exige concluir e refinar o que foi pensado.

Atividades criativas ajudam no tratamento do TDAH?

É uma possibilidade estudada. A revisão publicada na iScience propõe que atividades criativas poderiam fortalecer as redes cerebrais de controle da atenção, mas isso ainda precisa ser testado em estudos clínicos. Elas não substituem acompanhamento médico e psicológico.

Quantas pessoas têm TDAH?

Estimativas citadas pelos pesquisadores indicam que cerca de 8% das crianças no mundo têm TDAH. Em muitos casos, os sintomas continuam na vida adulta.

TDAH é falta de atenção?

Não exatamente. No TDAH, a dificuldade está em regular a atenção: direcioná-la e mantê-la onde é preciso. Por isso muitas pessoas com TDAH conseguem hiperfoco em atividades que despertam interesse e se distraem facilmente nas que não despertam.

Fontes e referências

  1. Bou Sader Nehme, Macaluso & Khalil: Attention unleashed, creative therapy for thoughtful transformation (iScience, 2026)
  2. ScienceDaily: ADHD may have a surprising creative advantage

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