Aprendizagem

Tempo de tela na infância e cognição: o resultado inesperado de um estudo de 8 anos

Pesquisadores da Finlândia acompanharam 260 crianças por oito anos e encontraram uma associação inesperada: mais tempo de tela na infância esteve ligado a melhor processamento cognitivo na adolescência. Entenda o resultado e seus limites.

Em resumo

  • Um estudo da Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, publicado em 2026 na revista Pediatric Exercise Science, acompanhou 260 crianças por oito anos.
  • Mais tempo de tela desde a infância se associou a melhor processamento cognitivo na adolescência.
  • Nas meninas, mais atividade física leve se associou a melhor memória de trabalho; nos meninos, mais atividade física orientada.
  • O estudo não separou o tipo de uso das telas e mostra associação, não causa.

Mais tempo de tela na infância esteve associado a melhor processamento cognitivo na adolescência em um estudo que acompanhou 260 crianças finlandesas por oito anos. O resultado, publicado em 2026 na revista Pediatric Exercise Science, vai contra o senso comum, mas tem limites importantes que pais e educadores precisam conhecer antes de tirar conclusões.

Como o estudo foi feito?

Pesquisadores da Universidade de Jyväskylä usaram dados do estudo PANIC, que acompanha a atividade física e a alimentação de crianças desde o início do ensino fundamental. Entraram na análise 260 participantes, 124 meninas e 136 meninos, que tinham em média 15,8 anos no fim do acompanhamento.

Ao longo de oito anos, a equipe registrou atividade física, tempo parado e tempo de tela, usando questionários e um aparelho que media batimentos cardíacos e movimento. Na adolescência, aprendizagem, atenção e memória de trabalho foram avaliadas com uma bateria de testes no computador.

Ficha do estudo
RevistaPediatric Exercise Science, 2026; 38(3): 268
InstituiçãoUniversidade de Jyväskylä (Finlândia)
Participantes260 crianças acompanhadas até a adolescência
Tipo de estudoObservacional, com 8 anos de acompanhamento
Artigo originaldoi.org/10.1123/pes.2025-0083

O que o estudo encontrou?

  • Mais tempo de tela desde a infância se associou a melhor processamento cognitivo na adolescência.
  • Nas meninas, mais atividade física leve se associou a melhor memória de trabalho.
  • Nos meninos, mais atividade física orientada (com treinador ou professor) ao longo dos anos se associou a melhor memória de trabalho.
  • O tempo parado e a atividade física medidos pelo aparelho não se associaram à cognição.

Então tela faz bem?

Não dá para concluir isso. Os próprios pesquisadores apontam que o estudo mostra associação, não causa. E há um ponto central: o estudo não separou o tipo de uso. Duas horas de videogame de estratégia, de vídeos curtos sem parar ou de pesquisa para a escola entram na mesma conta.

A hipótese dos autores é que atividades que envolvem aprender, criar ou resolver problemas expliquem parte do resultado. Também é possível que famílias com mais recursos ofereçam mais acesso a computadores e, ao mesmo tempo, mais estímulos de outros tipos. Nada disso foi testado.

Outros riscos ligados às telas, como pior sono, menos movimento e efeitos de redes sociais no humor de adolescentes, não foram o foco deste trabalho e continuam merecendo atenção.

O que pais e educadores podem fazer?

  • Trocar a pergunta “quanto tempo?” por “fazendo o quê?”. Criar, programar, pesquisar e jogar jogos que exigem planejamento são diferentes de rolar vídeos sem fim.
  • Participar. Usar a tela junto, conversar sobre o que a criança vê e faz, transforma consumo em aprendizagem.
  • Manter o movimento. Brincadeiras livres e esportes orientados também apareceram ligados a melhor memória.
  • Proteger o sono. Telas antes de dormir atrapalham o descanso, e o sono é quando o cérebro consolida o que aprendeu. Veja o que acontece no cérebro durante o sono.

Quanto tempo de tela é recomendado?

O estudo finlandês não muda as orientações dos pediatras brasileiros. Na atualização de 2024, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda:

IdadeRecomendação da SBP
Menos de 2 anosEvitar telas; se necessário, como em chamadas de vídeo com parentes, uso mínimo e com um adulto junto
2 a 5 anosAté 1 hora por dia, com conteúdo de qualidade e orientação dos pais
6 a 10 anosDe 1 a 2 horas por dia, com supervisão e preferência por atividades educativas ou interativas
11 a 18 anosDe 2 a 3 horas por dia, sem tirar o lugar do sono e da atividade física

Para todas as idades, a orientação é desligar as telas de 1 a 2 horas antes de dormir. O resultado do estudo reforça que, dentro desses limites, vale prestar atenção à qualidade do que a criança faz na tela.

Como transformar tela em aprendizagem?

Algumas ideias simples ajudam a tornar o tempo de tela mais ativo e menos passivo:

  • proponha desafios: montar uma apresentação, editar um vídeo curto, programar um jogo simples;
  • use a tela para pesquisar algo que surgiu em uma conversa e depois conversem sobre o que encontraram;
  • prefira jogos que exigem planejamento, estratégia ou criatividade;
  • combine regras claras sobre horários e lugares sem tela, como refeições e quarto na hora de dormir;
  • dê o exemplo: crianças imitam o uso que os adultos fazem do celular.

Na escola e nos treinamentos

O debate útil não é “tela sim ou tela não”, e sim como usar a tecnologia para colocar o aluno em ação: resolver, criar, testar e explicar. Essas são as mesmas atividades que a ciência da aprendizagem aponta como mais eficazes, como mostramos no nosso guia de neurociência da aprendizagem.

Neurociência na prática

  • Olhe para o que a criança faz na tela, e não só para quantas horas ela passa ali.
  • Prefira usos que envolvem aprender, criar ou resolver problemas, e faça parte deles quando puder.
  • Garanta atividade física diária: brincar ao ar livre e esportes orientados também se ligaram a melhor memória.
  • Proteja o sono: telas perto da hora de dormir continuam sendo um problema.

Perguntas frequentes

Tempo de tela faz mal para o cérebro das crianças?

Depende do uso. Um estudo finlandês que acompanhou 260 crianças por oito anos encontrou associação entre mais tempo de tela e melhor processamento cognitivo na adolescência. O estudo não diferenciou o tipo de uso, e outros fatores, como sono e atividade física, continuam importantes.

Que tipo de tela é melhor para crianças?

O estudo não mediu isso. Os pesquisadores levantam a hipótese de que atividades de aprendizagem, criação e resolução de problemas expliquem parte da associação positiva, mas isso ainda precisa ser testado.

Atividade física ajuda a memória das crianças?

No estudo, mais atividade física leve se associou a melhor memória de trabalho nas meninas, e mais atividade física orientada se associou a melhor memória de trabalho nos meninos.

Fontes e referências

  1. Jalanko et al.: Physical activity, sedentary behavior, screen time and cognition from childhood to adolescence, PANIC study (Pediatric Exercise Science, 2026)
  2. ScienceDaily: Scientists tracked kids for 8 years, and the screen time result was unexpected
  3. Estado de Minas: recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre tempo de tela (atualização de 2024)

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