Em resumo
- Um estudo do CAMH (Toronto) publicado na eBioMedicine comparou 24 pessoas com covid longa a 24 pessoas saudáveis usando exames de PET.
- Quem tinha covid longa apresentou marcadores de terminais de dopamina 16% a 20% menores no estriado.
- Cada região alterada se associou a um sintoma: perda de motivação, lentidão motora ou dificuldade de memória.
- A amostra é pequena; a redução pode não ser permanente e não se deve usar medicamentos dopaminérgicos sem prescrição.
Pessoas com covid longa apresentaram, em média, 16% a 20% menos de um marcador de terminais nervosos de dopamina no cérebro, e cada região afetada se associou a um sintoma: perda de motivação, lentidão motora ou dificuldade de memória. O estudo é do Centre for Addiction and Mental Health (CAMH), de Toronto, e foi publicado na revista eBioMedicine em julho de 2026.
O que é a dopamina?
A dopamina costuma ser chamada de “hormônio do prazer”, mas a definição é incompleta. Ela está muito mais ligada à motivação (o impulso de buscar algo), ao controle dos movimentos e a aspectos da aprendizagem e da memória. Grande parte das conexões de dopamina chega ao estriado, um conjunto de estruturas profundas do cérebro.
O que o estudo encontrou no cérebro de pessoas com covid longa?
Os pesquisadores usaram exames de PET com um marcador radioativo que se liga ao VMAT2, uma proteína que indica a densidade de terminais nervosos de dopamina. Participaram 24 adultos com covid longa e sintomas neuropsiquiátricos persistentes e 24 pessoas saudáveis da mesma idade; o grupo de comparação foi ampliado para 43 em análises exploratórias. O estudo foi conduzido entre agosto de 2022 e abril de 2025.
| Ficha do estudo | |
|---|---|
| Revista | eBioMedicine (10 jul. 2026) |
| Instituição | Centre for Addiction and Mental Health (CAMH), Toronto |
| Participantes | 24 pessoas com covid longa e 24 controles |
| Tipo de estudo | Caso-controle com PET |
| Artigo original | eBioMedicine (The Lancet) |
- Pessoas com covid longa tinham valores 16% a 20% menores em três regiões do estriado.
- Menos sinal no estriado ventral se associou à perda de motivação.
- Menos sinal no putâmen, à lentidão motora.
- Alterações no caudado e putâmen, a dificuldades de memória.
Quais são as limitações do estudo?
- A amostra é pequena e o desenho (caso-controle) não prova causa.
- Sinal reduzido não significa necessariamente perda permanente de neurônios; pode refletir uma mudança de funcionamento que precisa ser acompanhada ao longo do tempo.
- O pesquisador principal declarou um pedido de patente relacionado a um tratamento, o que é um potencial conflito de interesse.
- A equipe planeja um ensaio clínico e desaconselha usar medicamentos que agem na dopamina por conta própria.
O que isso significa para quem tem covid longa?
O achado ajuda a validar sintomas que muitas vezes são minimizados por familiares, colegas e até profissionais. Enquanto os tratamentos são estudados, a recomendação é buscar acompanhamento médico, retomar atividades de forma gradual e respeitar os limites do corpo.
Quais sinais merecem atenção?
A covid longa pode se manifestar de formas diferentes. Muitas pessoas relatam cansaço que não melhora com o descanso, piora dos sintomas depois de esforço físico ou mental, dificuldade de concentração (a chamada névoa mental), esquecimentos, desânimo e alterações de sono. Os sintomas podem durar semanas ou meses depois da infecção.
Alguns cuidados ajudam a conversar com o profissional de saúde:
- anote quando os sintomas começaram e o que os piora ou melhora;
- registre o nível de energia ao longo do dia, para identificar os melhores horários;
- conte se houve mudança de humor, de memória ou de motivação, e não só de cansaço físico;
- evite comparar o próprio ritmo com o de antes da infecção: a recuperação costuma ser gradual.
Esse registro ajuda a ajustar o tratamento e a planejar a volta às atividades com mais segurança.
Na volta ao trabalho ou aos estudos
Fadiga e falta de motivação depois de uma infecção podem ter base biológica. Não são “falta de vontade”. Na volta ao trabalho ou aos estudos, ajudam: metas e cargas ajustadas por um período, flexibilidade de horários, pausas e conversas abertas sobre o que a pessoa consegue entregar. Cobrar desempenho igual ao de antes, de imediato, tende a piorar o quadro e afastar talentos.
Saiba mais sobre como o cérebro se organiza desde a origem.
Neurociência na prática
- Fadiga e desmotivação após a covid podem ter base biológica, e não falta de força de vontade.
- Não use medicamentos que atuam na dopamina sem prescrição e acompanhamento.
- Retome atividades de forma gradual, respeitando o ritmo do corpo, com orientação profissional.
Perguntas frequentes
A covid longa afeta a dopamina?
Um estudo com PET encontrou redução de 16% a 20% em um marcador de terminais de dopamina em pessoas com covid longa. É uma evidência importante, mas ainda preliminar, por envolver apenas 24 pacientes.
Por que a covid longa causa cansaço e falta de motivação?
As causas ainda são estudadas. Uma das hipóteses, reforçada por esse estudo, é o envolvimento do sistema de dopamina, ligado à motivação, aos movimentos e à memória.
Existe tratamento para a fadiga da covid longa?
Ainda não há tratamento específico comprovado. A equipe do estudo planeja um ensaio clínico. O recomendado é buscar acompanhamento médico e retomar atividades de forma gradual.
Fontes e referências
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