Alimentação

Amendoim todo dia pode ajudar o cérebro de idosos a responder à insulina em áreas da memória

Um ensaio clínico com 31 idosos saudáveis mostrou que comer 60 gramas de amendoim torrado com pele, sem sal, por 16 semanas mudou a resposta à insulina em uma região do cérebro ligada à memória. O efeito é considerado potencialmente benéfico, mas o estudo é pequeno e não prova proteção contra demência.

Em resumo

  • Ensaio clínico randomizado e cruzado com 31 idosos saudáveis, com idade média de 67 anos, feito na Universidade de Maastricht, na Holanda.
  • Comer 60 g de amendoim torrado com pele, sem sal, por dia durante 16 semanas mudou a resposta à insulina em uma região que inclui o hipocampo.
  • No mesmo ensaio, o fluxo de sangue no cérebro foi 3,6% maior e a memória verbal melhorou 5,8% na fase com amendoim.
  • Gordura no fígado, glicose, colesterol e inflamação não mudaram, e o estudo não mostra prevenção de demência.

Um punhado de amendoim por dia pode fazer diferença no cérebro de quem já passou dos 60 anos. Em um ensaio clínico com 31 idosos saudáveis, comer 60 gramas de amendoim torrado com pele, sem sal, todos os dias durante 16 semanas mudou a forma como áreas ligadas à memória respondem à insulina. Na mesma pesquisa, a equipe já tinha visto a memória verbal melhorar 5,8%.

O novo resultado foi publicado on-line em 30 de setembro de 2026 na revista científica Food & Function, da Royal Society of Chemistry. O trabalho é da Universidade de Maastricht, na Holanda. A primeira autora é a pesquisadora Lucia Kerkhof, e o autor sênior é o professor Peter Joris, do Departamento de Nutrição e Ciências do Movimento.

A insulina não serve apenas para controlar o açúcar no sangue. No cérebro, ela também ajuda a regular a atividade dos neurônios, principalmente em regiões da memória. Com a idade, o cérebro pode responder pior a esse hormônio. Essa alteração tem sido associada ao diabetes tipo 2, ao declínio cognitivo e à doença de Alzheimer. Por isso, os cientistas querem saber se a alimentação consegue influenciar essa resposta.

Como foi feito o estudo?

Foi um ensaio clínico randomizado do tipo cruzado. Isso quer dizer que cada participante passou pelas duas situações: um período de 16 semanas comendo amendoim e outro período de 16 semanas sem amendoim e sem outras castanhas. A ordem foi sorteada. Entre os dois períodos houve uma pausa de 8 semanas. Assim, cada pessoa serviu de comparação para ela mesma.

O estudo foi simples-cego: os pesquisadores que mediram os resultados e fizeram as análises não sabiam em qual fase cada participante estava. Os voluntários, claro, sabiam se estavam comendo amendoim ou não.

Ao todo, 36 pessoas foram sorteadas e 31 completaram o estudo, sendo 15 mulheres e 16 homens. A idade média era de 67 anos. Todos eram saudáveis, sem diabetes e sem doença cardiovascular, e não fumavam.

Cada sachê diário de 60 gramas tinha cerca de 340 calorias, 15,5 g de proteína, 5,1 g de fibra e 29,5 g de gordura, principalmente gorduras insaturadas. A pele do amendoim foi mantida porque concentra compostos fenólicos. A adesão foi muito alta: a mediana foi de 100% dos sachês consumidos.

Para medir a resposta do cérebro à insulina, os pesquisadores usaram ressonância magnética. Eles mediram o fluxo de sangue no cérebro antes e 30 minutos depois de aplicar insulina em spray nasal. Também avaliaram a gordura no fígado e exames de sangue de glicose, colesterol e inflamação. O estudo foi financiado pela The Peanut Institute Foundation. Segundo os autores, a fundação não participou do desenho, da análise nem da redação do trabalho.

O que o estudo encontrou

A análise de todo o cérebro encontrou uma região no hemisfério direito que reagiu de forma diferente à insulina depois da fase com amendoim. Essa região inclui partes do hipocampo, do giro para-hipocampal e do giro lingual, áreas ligadas à memória. Nela, o aumento do fluxo de sangue provocado pela insulina foi menor, uma diferença média de 5,4 mL por 100 g de tecido por minuto. Os autores interpretam esse padrão como um efeito potencialmente benéfico.

O que foi medidoFase com amendoim, em comparação à fase sem amendoim
Resposta à insulina em área da memória (hipocampo e regiões vizinhas)Mudou, com resposta de fluxo 5,4 mL/100 g/min menor, interpretada como potencialmente benéfica
Resposta à insulina no cérebro como um todoSem diferença
Gordura no fígadoSem diferença (5,3% contra 5,0%)
Glicose, insulina e resistência à insulina no sangueSem diferença
Colesterol total, LDL e HDLSem diferença
TriglicerídeosQueda passageira na 8ª semana, sem diferença na 16ª
Marcador de inflamação (PCR ultrassensível)Sem diferença

Esse é o segundo resultado do mesmo ensaio. No primeiro, publicado em 2025 na revista Clinical Nutrition, a equipe mostrou que o fluxo total de sangue no cérebro foi 3,6% maior na fase com amendoim. A memória verbal também melhorou: depois de 20 minutos, os participantes reconheceram em média 1,4 palavra a mais, uma melhora de 5,8%.

Um detalhe importante: as pessoas cuja resposta à insulina mudou mais não foram, necessariamente, as que mais melhoraram na memória. Os pesquisadores não encontraram correlação entre as duas coisas. Eles lembram que o estudo não foi planejado para esse tipo de análise.

O que acontece no cérebro

O hipocampo é uma das regiões com mais receptores de insulina no cérebro. Ali, a insulina tende a acalmar os neurônios, reforçando sinais inibitórios. Como o fluxo de sangue acompanha a atividade das células, um aumento menor de fluxo depois da insulina pode indicar uma atividade mais bem regulada. Outro grupo já tinha visto esse mesmo padrão em adultos jovens e saudáveis.

O giro lingual, outra área do conjunto encontrado, participa da memória para palavras. Em um estudo anterior da mesma equipe, com uma mistura de nozes, castanhas de caju, pistaches e avelãs, essa região também mudou a resposta à insulina, e a memória verbal também melhorou.

Ainda não se sabe qual componente do amendoim explicaria o efeito. O amendoim é rico em L-arginina, um aminoácido que o corpo usa para produzir óxido nítrico. Essa molécula ajuda a dilatar os vasos e participa da plasticidade do hipocampo. O amendoim também tem gorduras insaturadas, fibras, polifenóis da pele, vitamina E e magnésio. Os autores ressaltam que esse fluxo medido na ressonância é um sinal indireto e não mostra diretamente o que os neurônios estão fazendo.

Os limites do estudo

  • Amostra pequena: 31 pessoas é suficiente para medir a resposta do cérebro, mas pouco para conclusões amplas.
  • Público específico: idosos holandeses saudáveis, sem diabetes. O resultado pode ser diferente em outros grupos.
  • Sem controle com as mesmas calorias: na fase sem amendoim, os voluntários não comeram outro lanche equivalente. Parte do efeito pode vir das calorias extras ou da troca de outros alimentos.
  • Medida indireta: a mudança apareceu em uma única região, e o significado prático dela ainda precisa ser confirmado.
  • Sem prova de prevenção: o estudo não mostra que o amendoim previne demência ou Alzheimer.
  • Financiamento do setor: a pesquisa foi paga por uma fundação ligada ao amendoim, embora os autores relatem independência.

Como levar isso para o dia a dia

O amendoim é barato, fácil de achar no Brasil e pode entrar em uma alimentação saudável. A Organização Mundial da Saúde inclui as oleaginosas entre os alimentos recomendados e orienta reduzir o sal. Por isso, o tipo usado no estudo faz diferença: torrado, com pele e sem sal. Amendoim salgado, doce de amendoim ou pasta com açúcar não são a mesma coisa.

Também vale prestar atenção nas calorias. A porção do estudo tinha cerca de 340 calorias. Na prática, o mais sensato é usar o amendoim no lugar de outro lanche, como biscoitos ou salgadinhos, e não somar ao que já se come. Quem tem alergia a amendoim deve evitar o alimento.

Nenhum alimento sozinho protege o cérebro. O que a ciência mostra com mais força é o conjunto: uma dieta variada, com vegetais, grãos integrais e gorduras boas, junto com atividade física e sono de qualidade. Já mostramos aqui como a dieta MIND está ligada a um envelhecimento cerebral mais lento e como a lecitina na dieta foi associada a menos comprometimento cognitivo em idosos.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui a orientação de um médico ou nutricionista. Antes de mudar a alimentação, principalmente se você tem diabetes, doença renal, alergia ou outra condição de saúde, converse com um profissional.

Neurociência na prática

  • Prefira amendoim torrado, com pele e sem sal, e evite versões salgadas, açucaradas ou fritas.
  • Use o amendoim no lugar de outro lanche, como biscoitos ou salgadinhos, para não somar calorias.
  • Combine oleaginosas com uma dieta variada, atividade física e sono de qualidade, que juntos protegem mais o cérebro.
  • Se você tem alergia, diabetes, doença renal ou outra condição, converse com um médico ou nutricionista antes de mudar a dieta.

Perguntas frequentes

Amendoim faz bem para o cérebro?

Um ensaio clínico com 31 idosos saudáveis encontrou sinais positivos: melhor fluxo de sangue no cérebro, memória verbal 5,8% melhor e mudança na resposta à insulina em áreas da memória. O estudo é pequeno e ainda precisa ser confirmado em grupos maiores.

Quantos gramas de amendoim posso comer por dia?

No estudo, os idosos comeram 60 gramas por dia, cerca de 340 calorias. Para a maioria das pessoas, uma porção menor já cabe bem na dieta, desde que substitua outro lanche. A quantidade ideal depende de cada pessoa e pode ser ajustada com um nutricionista.

Amendoim ajuda a prevenir Alzheimer?

Não há prova disso. O estudo mediu a resposta do cérebro à insulina e a memória em idosos saudáveis, e não acompanhou casos de demência. Os pesquisadores dizem que são necessários estudos maiores e mais longos.

Qual é o melhor tipo de amendoim para a saúde?

O estudo usou amendoim torrado, com pele e sem sal. A pele concentra compostos fenólicos e fibras. Versões salgadas, açucaradas ou fritas trazem sal, açúcar e calorias extras.

Fontes e referências

  1. Kerkhof, Mensink, Plat, Nijssen e Joris: Daily consumption of unsalted, skin-roasted peanuts beneficially affects regional brain insulin responsiveness in older adults: results of a longer-term randomized controlled trial (Food & Function, 2026)
  2. Kerkhof, Mensink, Plat, Nijssen e Joris: Longer-term skin-roasted peanut consumption improves brain vascular function and memory: A randomized, single-blind, controlled crossover trial in healthy older adults (Clinical Nutrition, 2025)
  3. ScienceDaily: Scientists discover a surprising brain benefit of eating peanuts every day
  4. Organização Mundial da Saúde: Healthy diet, fact sheet

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